ateísmo e os deuses dos outros

Acabei de ler essa “notícia” (entre aspas, porque em nenhum universo que se preze isso seria uma NOTÍCIA): Andressa Urach revela que fez pacto com pomba-gira.

Eu nunca havia ouvido falar dessa moça antes da notícia (essa sim, uma notícia de verdade) de que ela estaria em coma por uma infecção causada por aplicações de hidrogel nas pernas. Na época eu até pensei em escrever algo aqui, pois o machismo nos comentários e na imprensa em geral era algo nojento. A moça foi tão criticada por SE objetificar que esqueceram que se tratava ali de um ser humano. O fato é que estava todo mundo objetificando uma mulher, extirpando-a de sua humanidade para poder criticá-la por se auto-objetificar (como se ela não estivesse atendendo ao chamado dessas mesmas pessoas que olham uma moça como a Fernanda Gentil na praia e acham o corpo dela “bizarro”). A nossa sociedade (machista) construiu esses “ideais de beleza” e abriu espaço para que se crie esse tipo de “celebridade” que é famosa por atender justamente a TODOS os anseios de um “corpo perfeito”. Resumindo: o essa sociedade nojenta em que vivemos criou essa “oportunidade de emprego” de “mulher-gostosa-e-perfeita-tipo-panicat”, só que quando dá ruim, são essas mesmas pessoas as primeiras a criticarem, que a moça devia estudar, ou arrumar uma profissão decente ao invés de ficar obcecada com o próprio corpo. OI? QUEM É OBCECADO COM O CORPO DOS OUTROS? (sim, pois aparentemente ninguém quer cuidar do PRÓPRIO corpo, da própria saúde né?).

Mas enfim, não tinha vindo aqui para escrever sobre isso, mas estava entalado (eu fiz meia dúzia de posts no tuíter na época, mas o tuíter é um tanto efêmero demais. É bom que agora fica aqui registrado e com um pouco mais que os posts limitados a 140 caracteres de lá).

Agora vamos ao que interessa. Bora falar de deus.

Segundo a “notícia” acima, a moça Andressa se arrependeu de ter feito um pacto com uma pomba-gira (entidade das religiões afro-brasileiras, como o umbanda e candomblé) para que conseguisse tudo o que queria, em troca de uma garrafa de champagne (no post dela tá escrito meio errado, mas ok) a cada R$ 1.000,00 que ela ganhasse (fora valores de trabalhos e algumas festas esporádicas). Aí ela passou por todo o perrengue que passou e sentiu que havia vendido a alma. No post, ela cita sua família que é da igreja universal do reino de deus e que se afastou por não concordar com o dízimo. Depois de ficar em coma, Andressa diz que teve “um encontro com deus”, que rezou, voltou a ser dizimista, acordou do coma e foi curada de uma segunda infeccção depois de 7 dias. Esse é um resumo bem básico da notícia, mais detalhes, por favor não deixem de clicar no link (e dar $$$ pro UOL).

1- me pareceu um contrato um tanto específico demais para uma entidade espiritual. Eu diria que teve um (bom) intermédio “mundano” aí no meio desse acordo (e arrisco dizer que a pobre pomba-gira não viu uma só gota do tal champagne).

2- eu não sou muito bom com números, mas me parece que uma champa a cada R$ 1.000,00 é um valor BEM menor do que 10% de TUDO o que a pessoa ganhar, não? Tudo bem, vocês podem dizer que a pomba-gira não tava sendo lá muito eficiente, que deixou ela ter a infecção e tal, mas será que ela não conseguiria um deus intermediário? Que a curasse por, sei lá, 1 champa e 3,5% ao mês?

3- eu fico impressionado como passa batido o preconceito que se tem com “os deuses dos outros”. A matéria deixa claramente a entender que a “pomba-gira” é o demônio, ou uma “entidade ruim” e a maioria das pessoas nem para pra pensar nisso, simplesmente aceita e acha uma absurdo nivelar as duas entidades como eu fiz no ítem 2, onde coloco deus e a pomba-gira no mesmo patamar de divindades que são (e só chamo a atenção para os valores cobrados pelos HUMANOS que estão “por trás” dessas divindades).

4- será que teríamos esse mesmo preconceito se trocassem “Pomba-gira” por “Buda”? E por Zeus, Thor ou Obi-Wan Kenobi? Será que há um componente FORTE de racismo aí também, por se tratar de uma entidade de religião afro?

5- ao mostrar tamanha intolerância e preconceito com os “deuses dos outros” não estamos sendo iguais aos fundamentalistas islâmicos? Nós não estamos matando EM NOME do deus cristão, mas tem gente morrendo por seus deuses afro-descendentes (isso foi irônico… crimes de ódio acontecem contra negros TODOS OS DIAS e o componente religioso é sim um agravante).

6- também TODOS os dias ateus sofrem algum tipo de preconceito por não acreditarem em NENHUM deus. E eu acho engraçado que sofremos preconceitos sendo ainda muito mais tolerantes com todas as religiões. E outro fato importantíssimo, não há uma diferença TÃO grande entre um ateu e um cristão: existem e existiram milhares (talvez milhões) de deuses e divindades na história da humanidade. Um cristão é completamente ateu para TODOS esses deuses e divindades, menos para o seu deus-cristão. Enquanto isso, nós ateus somos ateus para todos. Na prática, nós só deixamos de acreditar em 1 deus a mais que eles.

7- deixei o último pro final. o deus da Andressa a curou em 7 dias. 7 dias é exatamente o tempo necessário para que um ciclo de antibióticos aja no organismo e elimine por completo uma infecção. pena que ela não vai reconhecer isso e doar 10% dos seus rendimentos para a área de pesquisa do hospital que salvou sua vida.

Para encerrar, eu nunca havia ouvido falar na moça Andressa Urach, mas eu realmente torci muito pela sua recuperação e a defendi de diversos comentários imbecis (não que isso tenha alguma relevância), mas usar seu caso para alimentar preconceitos que já são tão arraigados contra religiões afro-brasileiras é feio demais. Reze para seu deus, dê seu dízimo, mas deixe o deus dos outros em paz (ou até quem não tem deus).

 

A-deus!