O satélite, o foguete e os idiotas

Se ajeite na cadeira que hoje o post é longo, mas vale à pena!

Primeiro vamos aos fatos:

Inpe confirma fracasso no lançamento de satélite na China

Estou trazendo esse assunto ao blog pois há MUITA bobagem sendo dita e muita piadinha estúpida sendo feita sobre o assunto. Tanto as bobagens quanto as piadinhas disfarçam porcamente um pensamento pequeno, tacanho, típico dos que “pensam que pensam”, mas que não enxergam que há um braço naquele palmo que acabaram de ver diante do nariz (mas pelo menos o palmo à frente do nariz enxergam).

Vamos por partes (e começando BEEEM no começo)


1- O satélite:
Acho que aqui cabe ressaltar a informação mais importante e a primeira que devemos absorver para não sair arrotando bobagens por aí: o CBERS-3 NÃO é um brinquedo caro e inútil. Assim como não eram seus antecessores. Esse satélite é um instrumento científico avançado e extremamente necessário (embora eu não goste de usar os termos “útil” ou “necessário” para pesquisa científica, já que isso dá a entender que a ciência basal é desnecessária, afirmação que não poderia ser mais equivocada).
Um país do porte do Brasil, com a cobertura florestal do Brasil e com os problemas de desmatamento do Brasil simplesmente NÃO PODE se dar ao luxo de comprar imagens de satélite para monitoramento de desmatamento e de emergências. E é exatamente isso que estamos fazendo há 3 anos, desde 2010 quando o CBERS-2 deixou de funcionar (esses satélites possuem vida útil de 3 anos) nosso país não enxerga a Amazônia e a Mata Atlântica com seus próprios olhos.
É muito fácil rir de uma tecnologia nacional, claro, estamos mais acostumados com a NASA do que com a Agência Espacial Brasileira (AEB), acompanhamos lançamentos de foguetes o tempo todo, acompanhamos as sondas descendo em Marte, sobrevoando Saturno, chegando a Plutão ou mesmo saindo do Sistema Solar rumo ao espaço interestelar. Para nós, isso é que é programa espacial, isso é ter tecnologia e ser civilizado. NASA e ESA (agência espacial européia) que são agências de verdade e elas que devem se preocupar com o Espaço Sideral, certo?
NÃO, MUITO ERRADO!
O Brasil, mesmo em parceria com a China, ter conseguido construir essa linhagem de satélites e lançar seus antecessores é uma vitória DESCOMUNAL, se formos contar o nível de educação, as verbas destinadas à pesquisa científica e mesmo ao irrisório número de engenheiros formados por ano no país (apenas para me ater a um exemplo de qualificação).
A NASA só chegou a ser o que é hoje graças à corrida espacial da década de 60, durante a Guerra Fria. E por que? Porque o governo colocou um CAMINHÃO de dinheiro para ganhar essa corrida, e qual foi o “efeito colateral” (ou um dos efeitos) de o homem (americano) ter colocado os pés na Lua?
VOCÊ e a sua percepção (em certo grau compartilhada por uma grande parte do planeta) de que os EUA são sinônimos de tecnologia espacial. Aquela década inspirou gerações de americanos que queriam ser engenheiros, cientistas ou astronautas. A pesquisa aplicada para as missões espaciais renderam (e ainda rendem) produtos que mudaram a nossa vida .
É exatamente ISSO que o Brasil está perdendo ao investir TÃO POUCO (300 milhões não são absolutamente NADA) em ciência espacial. Esse é um campo capaz de inspirar as pessoas e formar gerações de pesquisadores e inovação tecnológica. É um trabalho de longo prazo, mas já está muito mais do que demonstrado que cada centavo investido no espaço volta para a Terra e com muitos dividendos (tangíveis e intangíveis), além é claro, dos benefícios diretos desse satélite específico, que é o monitoramento do nosso território.

2- A parceria com a China
“Devíamos buscar parceria com os EUA ao invés de ficar fazendo satélites Xing-Ling”. Talvez essa tenha sido a frase mais lida depois que saiu a notícia da falha de propulsão do lançador chinês que fez com que o CBERS-3 voltasse à Terra. Aqui a questão complica um pouquinho, mas eu vou tentar abordá-la, mesmo sem ter tanto conhecimento dos bastidores.
Firmar uma parceria como essa com a NASA, me parece uma missão extremamente difícil já que a Agência Espacial Americana já possui tecnologia de lançamento completamente desenvolvida e está enfrentando cortes de gastos. Portanto, se quisermos entrar “em parceria” com os EUA, imagino que precisaríamos pagar uma boa parte do projeto. Seria mais ou menos como alugar a tecnologia: nós usaríamos o que foi combinado e em troca daríamos dinheiro, portanto, uma transação puramente comercial, onde o Brasil não teria muito espaço para aprender nem colaborar. Países como a China e Índia são um pouco diferentes. Apesar de eu ter sérias restrições ideológicas contra a China, temos que lembrar que eles têm as maiores reservas em dólares do planeta e não estão medindo recursos para se aprimorar no campo científico e tecnológico (e estão fazendo isso a largos passos). Ontem (14/12/2013) fizeram o primeiro pouso em solo lunar, depois de 37 anos e hoje o Rover já começou a rodar pela superfície do nosso satélite natural. Portanto a China está aí, com muito dinheiro para investir e muito interessada em se aprimorar tecnicamente. O parceiro ideal para o Brasil que também tem interesse não só em monitorar seu vasto território como também de aprender e desenvolver técnologia e inovação.
Obviamente uma parceria com a ESA (agência espacial européia) poderia render excelentes frutos ao programa espacial brasileiro, porém aí o problema sai da esfera científica para entrar na geo-política com a ideologia do governo atual muito mais voltada a paises como a China e Índia (parte dos BRICS) do que a países do eixo EUA-Europa. O Chile tem acordos muito bons de cooperação científica no campo da astronomia observacional (para citar apenas o exemplo de um vizinho próximo). Mas infelizmente esse ainda é um país que pensa e formula políticas que deveriam ser de longo prazo sempre de olho nos períodos de mandatos e a ciência sempre estará sujeita à política.


3- Órbitas

Fonte: wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Orbital_motion.gif)

O genial Douglas Adams escreveu em “O Guia do Mochileiro das Galáxias” que “o segredo para voar é se atirar ao chão e errar o alvo”. Por mais engraçada que a frase seja, não consigo deixar de pensar que ela se aplicaria MUITO melhor a uma explicação das órbitas espaciais.
A maioria das pessoas acha que colocar um satélite em órbita é tão fácil quanto jogá-lo para o alto com muita força, o que não poderia estar mais equivocado. Os cálculos envolvidos para as trajetórias, excentricidades e velocidades são tão complexos que chegam a dar tontura só de imaginar.
Mas colocando de forma excessivamente simplista como se coloca um satélite (ou qualquer outro objeto) em órbita do nosso planeta (ou de qualquer outro corpo celeste): A Terra exerce sua atração gravitacional sob o satélite, certo? (lembram da maçã caindo na cabeça de Sir Isaac Newton?). Para que o satélite não caia na Terra como a maçã supracitada, é preciso que esse satélite tenha uma velocidade lateral que seja exatamente igual à força gravitacional da Terra, assim, essas duas forças entram em equilíbrio e o satélite vai ficar eternamente circulando nosso planeta. Simples não? Claro que não. Imagine dar esse “empurrãozinho” com a força exata e no ponto exato para que o satélite não fique sobrevoando o arquipélago de Fiji. Agora imagine se esse empurrão for forte demais, o satélite vai “escapar” da órbita da Terra (possivelmente indo orbitar, ou ser engolido, pelo Sol), agora imagine fazer tudo isso a uma velocidade mais alta que a de uma bala de rifle. Entenderam? É um processo de extrema complexidade e muito fácil de se errar. Quem faz piadinha com o nosso satélite, muito provavelmente acha que a infalível NASA nunca perdeu uma sonda por erro PRIMÁRIO de conversão de medidas (coisa que não ocorreu com o CBERS-3).

4- O Processo Científico
“Fracasso” em ciência é um pouco diferente do que conhecemos comumente como fracaso. Sim, nós perdemos dinheiro, perdemos (MUITO) tempo, mas ganhamos. Ganhamos conhecimento, o erro que aconteceu no lançamento do CBERS-3 não ser repetirá (pelo menos não no Brasil e nem na China), em ciência a máxima que vale é “Um resultado negativo também é um resultado”. Na verdade um resultado negativo é um resultado extremamente válido e que estimula novas perguntas, novas fronteiras, e a evolução do conhecimento. Obviamente todo esse “benefício” que vem com os fracassos se perdem completamente nas tragédias em que vidas humanas são perdidas, como no caso do Ônibus Espacial Challenger, em 1986 (lembro nitidamente daquele lançamento), do Ônibus Espacial Columbia, em 2003 e, para ter um exemplo nosso, do acidente com o VLS na base de Alcântara, há 10 anos.
Falando nesse último, a Base de Alcântara foi completamente reformulada, visando segurança total dos funcionários em caso de acidente, portanto até nesse caso, em que vidas foram perdidas, podemos assegurar que muitas vidas serão poupadas.
Então essa falha no lançamento do CBERS-3 vai nos ensinar bastante coisa, vamos aprender com os erros e não cometê-los, quem sabe já vamos ter esse “know-how” quando construirmos o nosso próprio lançador (o sucessor do VLS perdido no acidente de Alcântara), à partir dos fracassos vamos contruindo um conhecimento científico muito mais sólido, muito mais robusto e cada vez com menos espaço para bobagens e piadinhas estúpidas.

Resumindo: o Brasil, precisa de um Programa Espacial. Esse Programa Espacial PRECISA de verbas e precisa trabalhar e administrar essas verbas da melhor maneira possível. Investir no espaço é um dos caminhos (óbvio que não o único e nem o principal) para manter as pessoas inspiradas, para avançar em tecnologia e inovação e para formar mais e melhores cientistas (e reter essas mentes no Brasil). “Fracassos” como esse nos mostram que ainda temos um longo percurso pela frente, e por isso mesmo, precisamos de mais investimentos na área.

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