queermuseu | sobre liberdades e movimentos

ARQUIVO 12/09/2017 CADERNO2 / CADERNO 2 / C2 / USO EDITORIAL RESTRITO / A exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, em cartaz no Santander Cultural até 8 de outubro, promove o questionamento entre a realidade das obras e o mundo atual. FOTO Fredy Vieira / SANTANDER CULTURAL

 

Tudo já foi amplamente dito e escrito sobre a exposição Queermuseu, censurada em Porto Alegre.

Apenas quero apontar que dentre todas as ironias e hipocrisias das falsas moralidades, as intenções ficam claríssimas quando um certo MOVIMENTO BRASIL LIVRE promove censura, mordaça e obscurantismo.

 

Acho que isso já diz tudo.

 

 

Para entender sobre o assunto:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,exposicao-sobre-diversidade-sexual-e-cancelada-apos-repercussao-negativa,70001983960

http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,museus-ja-adotam-autocensura-para-evitar-repeticao-do-caso-santander,70001990679

http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,exposicao-suspensa-no-rs-pode-reabrir-em-belo-horizonte,70001990425

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privilégios

Sou homem, branco e hétero. Sou privilegiado. Fui criado como privilegiado, vivi como privilegiado.

Sou machista, racista e homofóbico. Esses grupos são diferentes de mim e da minha criação. Fui criado para ter essas posições, vivi quase minha vida toda com essa criação, imerso numa sociedade que foi feita para perpetuar os privilégios e esmagar as minorias.

Todo dia eu acordo e levanto da minha cama com o objetivo de ser uma pessoa melhor, de ir contra a sociedade, ir contra a minha criação, abrir um pouco de mão dos meus privilégios e tentar ser menos machista, menos racista, menos homofóbico. Eu não entendo dos movimentos sociais, não li os livros essenciais, não estudei o tema. Sou uma pessoa comum, tentando ser um pouco mais comum, um pouco mais como são todos. Tentando fazer com que xs que foram deixadxs nos degraus mais baixos da sociedade subam, tentando fazer com que privilegiadxs como eu, enxerguem esses privilégios e passem também a lutar contra eles.

Não tô de mimimi, não tô me vitimizando, não estou dizendo que é difícil. É sim difícil abrir mão de privilégios, é sim desgastante fazer militância, mesmo que a “de sofá”, bater boca com gente ignorante no trabalho, no boteco e na internet. Mas é o MÍNIMO que eu posso fazer.

É o MÍNIMO do MÍNIMO do MÍNIMO que eu DEVO fazer. Por que eu tenho o privilégio de “desligar” tudo isso e voltar para a bolha que a sociedade me coloca, uma bolha onde ninguém quebra uma lâmpada na minha cara por eu amar alguém do mesmo sexo, em que eu corro risco quase zero de ser estuprado na rua, mesmo se sair pelado, onde eu passo por policiais à noite e recebo um “boa noite” ao invés de um “mão na cabeça, vagabundo”.

Eis aqui mais alguns privilégios que eu tenho:

– privilégio de poder vestir o que quiser e não ser julgado por isso (e nem culpabilizado em caso de violência sexual)

– privilégio de poder sair de mãos dadas e demonstrar carinho com quem eu amo na rua, sem sofrer agressão física e verbal

– privilégio de poder beijar em um restaurante sem medo de ser expulso pelo gerente ou segurança

– privilégio de poder mandar no meu corpo, de tomar as decições que bem entender sobre ele

– privilégio de poder cometer erros sem que isso seja imputado à cor da minha pele

– privilégio de poder dizer o que penso, de contribuir com algum debate e ter a opinião respeitada, sem ouvir coisas como “isso é não discussão para homens”

– privilégio de ser respeitado, de ter meus direitos constitucionais básicos inatacados e de não precisar lutar por respeito TODO DIA

– privilégio de não ser visto como uma aberração aos olhos de religiosos fundamentalistas (mesmo sendo ATEU)

– privilégio de poder me casar (no civil mesmo) com a pessoa que eu amo e escolhi

– privilégio de poder ser assaltado sem que a polícia me prenda como assaltante

– privilégio de poder morrer em paz, e saber que essa pessoa com quem casei não terá dificuldades em ficar com os bens que construímos durante a vida juntos

– privilégio de não ser morto na rua apenas por ser negro, por ser mulher ou por ser homossexual

– privilégio de a polícia não engavetar meu assassinato, como se não tivesse importância

– privilégio de não precisar de leis que restaurem a igualidade

– privilégio de não precisar ouvir críticas de gente estúpida que acha que as minorias querem ser privilegiadas (nem estou olhando pra você, sr. pastor)

Mas FELIZMENTE eu tive um privilégio a mais e esse tem um valor inestimável: eu tenho AMIGXS. Primeiro, nos anos em que eu morei no bairro do Ipiranga, em São Paulo, tive um contato MUITO próximo com o movimento Hip Hop, fui inclusive DJ uma parte da minha adolescência e cresci revoltado com a diferença de tratamento que a escola, a PM e a sociedade em geral dispensava a mim em relação aos meus amigxs e colegas negrxs. Já naquela época eu me dei conta (talvez não com essa organização mental e lucidez que tenho hoje) do privilégio de ser branco, de como eu tinha muita gente com tanto (e até MUITO MAIS) potencial que eu, que não teria as mesmas oportunidades que eu teria na vida. E tudo isso pela cor da pele. Desde então, passei a tomar um cuidado redobrado para matar qualquer forma de racismo em mim, desde a mais breve piadinha. E até hoje eu ainda me pego vez por outra tendo que sufocar algum pensamento racista, e me envergonho desses pensamentos. Esse foi meu hino naquela época, e infelizmente anda mais atual do que eu gostaria:

Mas eu ainda era um machista e homofóbico. E eu NUNCA havia nem me dado conta disso. Para mim, eu era um ser humano completamente normal, até um pouco acima da média, pois eu não era racista e olhava torto para os racistas a minha volta. Isso nunca me impediu de ser um completo babaca. O primeiro grande chacoalhão foi quando perguntei a um homossexual amigo meu se ele já havia ficado com mulheres (clássico da homofobia) pra saber se não gostava mesmo (achando que era a coisa mais normal do mundo fazer esse tipo de pergunta, pq afinal, é NORMAL ser hétero) e levei a resposta mais óbvia e a que eu MENOS esperava: “eu não, e você, já ficou com homem pra saber se é hétero?” Aquela resposta havia sido TÃO genial, tão óbvia e tão inesperada, que a partir daquele momento eu comecei a rever todas as minhas posições, minhas declarações e pensamentos sobre a homossexualidade. Mas ainda havia um loooooongo caminho pela frente (e ainda HÁ).

Minha luta interna contra o machismo começou com a convivência com uma amiga e colega de trabalho, a Renata Zê (já disse isso e repito, MUITO obrigado Rê!). As tiradas, as idéias, os comentários, as coisas pelas quais ela lutava! Coisas que eu jamais imaginaria que poderiam incomodar, atitudes, pensamentos, comentários que todo homem faz e que é ÓBVIO que são escrotos, mas só são óbvios se realmente paramos para pensar, coisa que NINGUÉM faz, nenhum privilegiado para para pensar que não é um privilégio para a mulher ser cantada por ele. Nenhum babaca machista acha que incomoda (eu inclusive).  E sim essa sociedade que nascemos e fomos criados foi feita para PERPETUAR esses privilégios, o privilégio que EU TENHO, que todo homem, branco e hétero tem: o de SER BABACA.

ISSO é ter privilégio. E pessoas morrem por não terem esses privilégios, pessoas morrem simplesmente por não serem homens, brancos e héteros. E o sangue dessas pessoas está nas minhas mãos, mas também está na de TODOS que não fazem nada para que isso acabe, que alimentam, que perpetuam, que fazem piadas racistas “mas é só de brincadeira”, que falam que “pode ser gay, mas viado tem que morrer”, que mexem com mulheres na rua e que acham que o mundo tá muito chato “politicamente correto”.

O mundo está sim mudando. O que era normal, não é mais e não pode mais ser.

Antigamente tinha racismo na TV, no rádio, nas conversas de botequim. Escancarado, escrachado no humor, nos comentários, nas expressões. Hoje ainda tem, mas é velado, é o racismo do estereótipo, é o racismo que finge que não existe. O racismo perigoso, pois nega a si mesmo e ainda imputa a pecha de racista a quem o aponta. E de uns tempos pra cá, também agora tem o racismo reverso, invenção de brancos que nunca sentiram na pele o que é ser julgado (e condenado) pela sua quantidade de melanina.

O machismo ainda está impregnado em CADA PORO da sociedade, em homens, mulheres e crianças. O sexismo está TÃO arraigado em todos nós que é muito difícil ver alguém que pára para pensar nessas práticas, e que consegue enxergá-lo, pois está tão presente quanto o ar que respiramos (e faz tanto mal quanto esse ar poluído de SP – ou mais). É TÃO óbvio que azul é “de menino” e rosa “de menina” que as pessoas simplesmente nem questionam mais esses “valores”. E essa separação sexista ainda serve para ensinar a homofobia para as crianças já desde o berço (“meu deus, meu filho gosta de rosa!”)

A homofobia é um capítulo à parte. É a mais escancarada, todo mundo tem opinião formada sobre homossexuais, como eles devem ser, o que devem vestir, qual o tom de voz adequado, etc. (a lista é LONGA). E quando alertamos que esse tipo de “opinião” não passa de homofobia, vêm logo dizendo que jamais seriam homofóbicos, pois têm até amigos gays. Adoram usar o termo homossexualismo para desfilar suas “opiniões” honestas e até amigáveis, mas quando são corrigidos para o termo “homossexualidade” começam a xingar ou somem de vez, mostrando que a real intenção não era nada amigável e sim ofender, humilhar e diminuir.

Então sim, o mundo ESTÁ mudando, e mudando para MELHOR. E infelizmente (ou felizmente) você não tem opção. Nossos privilégios como homens, brancos e héteros está morrendo lentamente, um pouco a cada dia. E nós temos uma escolha a fazer: ou ajudamos a mudar (e com isso nos preparamos para esse mundo novo que vem aí) ou morremos com o mundo velho, reclamando e fazendo nossos netos passarem vergonha.

Em que mundo você vive? Em que mundo você quer viver?

Eu já fiz minha escolha, e tenho MUITO orgulho de ser cada vez MENOS machista, racista e homofóbico. Tenha orgulho também, não orgulho de ser branco, não orgulho hétero (nada mais patético do que ter orgulho de ser maioria, orgulho de ter privilégio e esmagar as minorias). Venha ter orgulho de fazer diferente e fazer diferença nessa sociedade.

 

Fiquem em paz!